
Foi na terra do mar que Inez pôs em primeiro
lugar as suas mãos. Daí sairam conchas, algas,
pequenos grãos de areia que se introduziam entre os dedos e
embora fizessem uma ligeira impressão traziam consigo o
nácar dos peixes e o azul do Mar. Foi com estes olhos que
Inez se arrelampou com o primeiro pôr do sol, com o primeiro
arco iris, com a primeira onda agreste que lhe deitou o mar por
cima e lhe deixou sal nos lábios. Foi com estes olhos que
Inez viu a terra vermelha, aquela onde até se podiam plantar
pedras. Mas foi com estes olhos que Inez recompôs a saudade e
mergulhando as mãos na terra adversa, daí tirou tudo,
fez compotas, adoçou a família e os amigos, e como se
não bastasse, meteu a imaginação pelo meio
para criar coisas que aos nossos olhos se tornaram surpreendentes.
Foi com estes olhos que Inez abraçou o pasto com a mesma
ternura que abraça os poetas, o mesmo amor que abraça
a alma. E foi com estes olhos que Inez viu a liberdade dos
pássaros e os reproduziu fielmente, para que eles os
pássaros pudessem ir para além do vôo, naquilo
que os pássaros ensinam as pessoas em trajectórias
para além do circulo. E as mãos de Inez estão
aqui. No tudo que nos leva ao caminho duma descoberta plena. Por
favor Inez não deixes que as tuas mãos saiam do nosso
coração.
Teresa Roza D’Oliveira -
Julho de 2004
(Pintora nascida na Ilha de
Moçambique)